Tebas ainda teima (breve tragédia, em três atos)

primeiro:
acabou de nascer
percebe-se que os deuses
pouco se importaram
é preto
é pobre

segundo:
o futuro
do menino
é incerto
todavia
como incerta é
a vida de toda criatura
(do bom oráculo
espera-se
esperança
em meias palavras)

terceiro:
o projétil
que o matará
sequer foi fabricado
mas seu destino está
desde já traçado

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Kafka na lanchonete

a tarde cai sem assombro ou candura
sozinho numa lanchonete suja
Franz Kafka toma um café fraco e frio
entediado, tenta ler um livro
cujo enredo não tem pé nem cabeça
na margem de uma página, desenha
um homem atormentado, talvez
ou talvez apenas um traço incerto

assim, naturalmente, a noite avança
e se consolida na escuridão

a tevê em horário nobre veicula
um show triunfante, cruel e dúbio
Kafka fecha o livro e então considera
aquilo que ora contempla na tela
pergunta-se que espécie de barbárie
era afinal aquela, insana e sádica
entretidos, risonhos e felizes
lado a lado, ofensores e ofendidos
numa festa (registre-se) perversa

perversa: há palavra melhor do que esta?
mesmo muda a resposta soa clara:
para isto, meu caro, não há palavra

Ofensa

Primo Lévi levanta
precisamente às seis
se barbeia sem pressa
depois, um banho frio
um gole de café
pão preto com manteiga
de nada mais precisa
nesta ou noutra manhã
então abre o jornal
lê primeiro as manchetes
apenas as manchetes
libertas das notícias
falácias em migalhas
verdades sem verdade
imensas ou pequenas
neste mundo tão confuso
todas as coisas são
tragédia sem catarse
uma partida de futebol
ganha ares de barbárie
nada disso perturba
os olhos que já viram
o mundo em excesso
há, porém, uma ofensa
pensa ao ver uma foto
imensa, colorida
de uma jovem atriz
que atravessa a rua
eis a única ofensa
o que não pode ser
apagado, esquecido
nem sequer concebido
aquilo que aniquila
o que resta do humano:
estar ainda vivo